Vozes da Periferia do Mundo: O que é o Feminismo Decolonial?

Se você já conversou sobre feminismo, provavelmente pensou em pautas como igualdade salarial, direito ao voto ou liberdade de escolha sobre o próprio corpo. Mas você já parou para pensar que a realidade de uma mulher negra da periferia de São Paulo, de uma mulher indígena na Amazônia ou de uma camponesa na Bolívia é completamente diferente da realidade de uma mulher de classe média em Paris ou Nova York?

É exatamente dessa provocação que nasce o Feminismo Decolonial.

O que é o Feminismo Decolonial?

O feminismo decolonial é uma corrente teórica e prática que critica o feminismo tradicional (frequentemente chamado de “hegemônico” ou “eurocêntrico”). Ele argumenta que o feminismo clássico foi construído sob a perspectiva de mulheres brancas, ocidentais e de classe média, universalizando as dores e as lutas delas como se fossem as de todas as mulheres do mundo.

Para as teóricas decoloniais — como a filósofa argentina María Lugones (que cunhou o termo “colonialidade de gênero”) —, não dá para discutir opressão de gênero sem discutir o impacto histórico da colonização, do racismo e do capitalismo.

Em termos simples: o colonialismo não acabou quando os colonizadores voltaram para a Europa. Ele deixou marcas profundas na forma como nossa sociedade se organiza, ditando quem é considerado “humano”, quem tem direitos e quem é empurrado para as margens.

Os Três Pilares Essenciais

Para entender como essa perspectiva funciona na prática, vale a pena olhar para os seus pontos centrais:

1. A Interseccionalidade Levada a Sério

Para o feminismo decolonial, gênero, raça, classe e nacionalidade não podem ser separados. Uma mulher indígena não sofre opressão apenas por ser mulher; sua vivência é atravessada pelo racismo estrutural que desvaloriza sua cultura e pela exploração da terra onde ela vive. Tentar “salvar” essa mulher focado apenas no machismo, sem combater o racismo e a destruição ambiental, é ignorar a maior parte da sua realidade.

2. A “Colonialidade de Gênero”

María Lugones explicou que, antes da invasão colonial nas Américas e na África, muitas sociedades tinham organizações de gênero muito mais fluidas, horizontais ou até mesmo igualitárias. O colonizador europeu impôs um modelo rígido e patriarcal: o homem branco no topo, a mulher branca abaixo dele (para reproduzir e herdar a propriedade), e as pessoas negras e indígenas categorizadas quase como “não-humanas”, expostas a níveis extremos de violência e trabalho forçado. O gênero, portanto, foi usado como uma ferramenta de dominação colonial.

3. A Valorização dos Saberes Locais

O feminismo decolonial rejeita a ideia de que as mulheres do “Sul Global” (América Latina, África e Ásia) precisam ser “salvas” pelas teorias ou ONGs do Norte Global. Ele defende que as comunidades locais já possuem suas próprias formas de resistência, cura, solidariedade e liderança. O objetivo é ouvir e aprender com essas mulheres, em vez de ditar regras a elas.

Em resumo: O feminismo decolonial não é apenas sobre igualdade entre homens e mulheres dentro do sistema atual. É sobre mudar o sistema inteiro, questionando as heranças coloniais que ainda dividem o mundo entre quem manda e quem obedece.

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