Quando Karl Marx conceituou a acumulação originária em O Capital, ele descreveu o processo violento que separou os camponeses de suas terras, transformando-os em proletários e dando origem ao capitalismo. No entanto, para teóricas feministas como Silvia Federici, essa narrativa tradicional tem uma lacuna histórica crucial: ela ignora que a transição para o capitalismo não foi apenas uma reestruturação econômica, mas uma revolução patriarcal.
A resposta para a pergunta do título é categórica: sim, a acumulação originária tem sexo.
1. A Divisão Sexual do Trabalho e o Trabalho Reprodutivo
Para que o capitalismo funcionasse, não bastava apenas criar uma classe de trabalhadores assalariados para as fábricas. Era necessário criar, paralelamente, uma infraestrutura que mantivesse esses trabalhadores vivos, alimentados, vestidos e capazes de se reproduzir.
- A criação do “trabalho doméstico”: O trabalho de cuidado (reprodução da força de trabalho) foi completamente separado do trabalho produtivo (pago).
- A naturalização do cuidado: Esse trabalho vital realizado pelas mulheres foi desvalorizado, deixando de ser considerado “trabalho” para ser tratado como um “atributo natural feminino” ou um “serviço de amor”.
- O salário do homem: O salário pago ao trabalhador masculino passou a cobrir também o trabalho invisível da mulher em casa, transformando o homem no “gerente” da força de trabalho feminina.
2. A Caça às Bruxas como Disciplinamento do Corpo Feminino
O terror foi uma ferramenta essencial para consolidar essa nova ordem social. A perseguição e o massacre de milhares de mulheres na Europa e nas Américas durante a transição para o capitalismo — a chamada caça às bruxas — não foram superstições medievais tardias, mas uma política de Estado moderna.
“A caça às bruxas foi um elemento essencial para a instauração do capitalismo: era preciso destruir o poder das mulheres sobre seus corpos, sua sexualidade e seus conhecimentos reprodutivos para transformá-las em máquinas de produzir trabalhadores.” — Inspirado nas teses de Silvia Federici
Ao demonizar as parteiras, as curandeiras e as mulheres que resistiam ao controle social, o Estado e a Igreja confiscaram o controle feminino sobre a procriação, criminalizando o aborto e a contracepção para garantir o crescimento da população trabalhadora.
3. Os Três Pilares da Acumulação Generificada
Para compreender a acumulação originária sob a perspectiva de gênero, podemos dividi-la em três pilares fundamentais:
- Expropriação do corpo: O corpo da mulher passou a ser visto como um recurso natural de propriedade do Estado e do mercado, voltado à reprodução biológica da força de trabalho.
- Expropriação econômica: A perda das terras comuns afetou as mulheres de forma ainda mais severa, pois elas perderam suas fontes de subsistência independentes e foram forçadas à dependência econômica absoluta dos homens.
- Hierarquização social: A criação de uma nova hierarquia de gênero onde a feminilidade foi associada à passividade, à domesticidade e à subordinação.
Conclusão: O Capitalismo é Intrinsecamente Patriarcal
A acumulação originária tem sexo porque a exploração do trabalho assalariado nas fábricas e escritórios sempre dependeu — e ainda depende — da exploração não paga do trabalho de reprodução social realizado predominantemente por mulheres.
Entender que o capitalismo nasceu de mãos dadas com a subjugação feminina não é apenas um debate histórico; é a chave para compreender por que a desigualdade salarial, a dupla jornada e a desvalorização das profissões de cuidado continuam tão estruturais no mundo contemporâneo.






